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Lenda Baré

Atualizado em 12 de Janeiro de 2018 escrito por Lucas Raposo

A origem do povo Baré, segundo a lenda, aconteceu ainda no início do mundo, quando entrou no rio Negro, vindo do rio maior, um grande navio cheio de gente no seu interior e cada um com seu par.

Um homem viajava neste navio, pelo lado de fora, pois não foi aceito dentro por não estar acompanhado. Ao passar pela foz do rio Negro, o homem que viajava pelo lado de fora não resistiu à tentação e se jogou para fora e nadou para a margem do rio.

Ao alcançar a beira, ele foi agarrado por mulheres guerreiras que tinham o costume de aceitar apenas mulheres em seu grupo.

Quando tinham necessidade de ter filhos, aprisionavam machos de outras tribos e dessa relação, se nascesse mulher elas criavam, e se fosse homem elas matavam.

Esse seria o destino do homem a quem deram o nome de Mira-Bóia (Gente-cobra), se não fosse sua estrutura física ser um pouco diferente das que elas já conheciam, por isso resolveram poupar-lhe a vida.

Depois de terem submetido Mira-bóia a um rigoroso teste de masculinidade, as guerreiras então prepararam uma grande festa na primeira Lua Cheia.

Uma grande fogueira no centro do pátio foi feita, muitas frutas e mel silvestre foram coletados. A festa com os rituais durou oito dias. No fim da festa, o grupo tomou a decisão: Mira-bóia ficaria morando com um grupo com a condição de gerar um filho com cada uma delas. Ele teria que dormir três noites com uma mulher que estivesse na época do seu período fértil.

Terminando essa missão, ele seria executado, assim como todo filho que nascesse homem. Mira-bóia então passou a conviver com o grupo por um longo período, nessas condições, até que gerasse filho com a última mulher,conhecida como Tipa (Rouxinol), uma jovem muito bela que estava no primeiro período de menstruação.

Ela, por ser a mais nova, a mais bonita e muito querida pelo grupo, teve o privilégio de morar com Mira-bóia até que sua gestação aparecesse visualmente para o resto do grupo. Devido a isso Tipa e Mira-bóia passaram a viver uma vida a dois e quando ela percebeu que já estava gestante, descobriu-se também perdidamente apaixonada pelo companheiro.

O mesmo acontecia com Mira-bóia. Como o destino do amado seria a morte, ela conseguiu convencer o seu já considerado marido para uma fuga.

No primeiro período de Lua Nova eles fugiram, aproveitando o momento em que as guerreiras saíram para caçar e coletar mel e frutas,que serviriam de consumo nos dias da festa da execução do homem.

O jovem casal viver distante dos demais grupos. Acredita-se que esse local tenha sido nas proximidades de Mura no baixo rio Negro. Depois de mais ou menos 30 anos, a família já estava grande, Tipa e Mira-bóia todos os dias pela tarde curtiam sua felicidade juntos com os filhos e filhas de sua geração. Com isso eles viram que podiam ser uma família muito maior.

Foi então que Tupana ordenou que viesse até eles o seu Mensageiro, o qual se chamou Purnaminari para lhes dizer o seguinte: “Aquilo que vocês estão pensando agrada a Tupana, por isso ele me enviou, para ensinar vocês a trabalhar e, com isso, garantir a comida de vocês todos os dias”.

Purnaminari, o mensageiro de Tupana, então passou a morar com eles por um longo período, ensinando-os a fazer canoa, remo, roça, armadilha para pegar caça, peixe e treinar o novo grupo para guerra. Quando o pequeno grupo já sabia de tudo que lhe foi ensinado, ele organizou uma grande festa com Dabucury, Adaby e Curiamã para preparar o povo na sua caminhada, dizendo: “Agora que vocês já sabem de tudo o que eu lhes ensinei para viver, voltem para a terra de Tipa e tomem todas as mulheres do antigo grupo de Tipa para serem mulheres de vocês, aí então vocês serão grandes e respeitados e conhecidos por Baré-mira (povo Baré)”.

Purnaminari voltou várias vezes para visitar e instruir seu povo. O grupo cresceu bastante a ponto de dominar totalmente a região do baixo e médio rio Negro.

Ao chegarem à Cachoeira de Tawa (São Gabriel) permaneceram ali até que Purnaminari decidisse o novo destino do povo. No entanto, nessa cachoeira Kurukui e Bururi desentenderam-se e brigaram entre si, por isso resolveram separar-se, ficando Kurukui de um lado e Buburi de outro lado do rio. Essa separação acabou provocando desobediência às regras de Purnaminari, que ordenou ao povo não se misturar com outros grupos.

Porém Kurukui e Baburi acharam que para poder aumentar os seus grupos tinham que ter muitas mulheres. Foi quando eles guerrearam com grupos menores para tomar suas mulheres e se multiplicarem.

Assim Tipa e Mira-bóia fizeram e conseguiram ser pais de um grande povo que, até à chegada dos brancos, habitava o rio Negro desde a foz até às cachoeiras.

“Vai aparecer do rio maior, o maior e mais poderoso inimigo de vocês”: foi com essa mensagem que Purnaminari tentou prevenir todos os povos que dominavam estas terras antes de 1500.

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