#Cidades

Lenda do Boto

Atualizado em 15 de Janeiro de 2018 escrito por Lucas Raposo

O boto, como Uauiará, representa o variante masculino da Iara (Mãe-d’Água), dona de igual poder de encantamento e sedução. Assim, de modo amplo, o boto está simbolizando o elemento água, dentro da qual vive. Ele transforma-se em homem e atinge o estado de manifestação dos poderes secretos, trazidos das profundezas do seu elemento.

O primeiro filho de muitas nativas é atribuído ao contato com esse deus que, ora as surpreende no banho, ora transforma-se em mortal para seduzí-las, arrebatando-as para dentro das águas.

A presença das águas determina toda a vida da região, um verdadeiro planeta aquático, na forma das correntes fluviais, enchentes, chuvas torrenciais (“torós”), enxurradas, ou fenômenos incríveis como AS “pororocas”.

A comunhão da mulher com a natureza é tão intensa, que um estrato de sua psique pode facilmente projetar-se nas águas e esperar dali a vinda do amante sensual. Consta que o órgão sexual do boto, tanto do macho quanto da fêmea, é idêntico aos órgãos sexuais feminino e masculino.

A semelhança entre os orgãos genitais humanos e dos botos torna verossímel a experiência sexual que o folclore insistentemente relata e, certamente, tem contribuído para intensificar o simbolismo do mito.

Antes da popularização do boto “amoroso”, no entanto, relatam as lendas indígenas que havia um outro boto sério e bom, venerado pelos tapuias como um deus milagroso, conhecido como Mira que quer dizer boto-gente, ou boto em forma de pessoa.

Essa sacralização contribuiu para que o consumo de carne de boto se tornasse um tabu, o que faz com que, na região, dificilmente índio ou caboclo se atreva a comer carne de boto. Possivelmente o eco desses atributos de bondade com relação ao boto perduram, pois, de acordo a maiorias das tradições, ao boto é atribuída geralmente uma função protetora, havendo relatos de que o boto ampara AS canoas em temporais e acompanha embarcações em que viajam mulheres grávidas, cuidando de protegê-las até que cheguem em terra firme.

No fato é que, cercado de crendices e lendas, o boto amazônico, ou “boto-namorador”, é um dos animais mais populares da região, e suas atividades “donjuanescas” têm sido noticiadas em crônicas brasileiras e portuguesas há pelo menos dois séculos. Em forma de homem, pela qual é mais conhecido, apaixona e rapta AS cunhãs, conquistando-as nos bailes e nas beiras de rio.

Ocasionalmente em forma de mulher, “vira a cabeça” dos caboclos, deixando-os apalermados. Diz-se que, depois de servir sexualmente ao caboclo, o boto fêmea se apega a ele e passa a rondar a sua cabana ribeirinha e a proteger a sua canoa dos perigos das águas.

Outros dizem, ao contrário, que o homem tem relações com o boto fêmea, ou bota, no linguajar caboclo, morre exausto, em razão do coito arrebatador. Apesar das variações, o mito possui um conteúdo predominante, que se refere à entrega sexual da cabocla a um ser mágico.

Este ser é visto como uma transformação do boto em rapaz sedutor que arrebata a jovem com carinhos e doces palavras e a possui nas praias mornas dos rios, em meio à natureza enebriante e acolhedora.

No lendário amazônico, é natural atribuir ao boto a paternidade de uma bebê inesperado. E o boto-namorador que infelicita AS famílias ao seduzir donzelas, casadas ou viúvas, é descrito como um belo e elegante rapaz que usa sempre impecáveis roupas brancas e chapéu preto, fala manso, e, dizem, toca bandolim.

A deslumbrante figura aparece nas noites enluaradas, na ribeira dos rios, nos bailes e nos barrancos, e deixa sua marca nas areias das praias e no corpo das mulheres, geralmente na forma de um filho. Dizem que uma mulher viciada em andar com o boto emagrece, empalidece, fica de tal forma enredada nas malhas do sedutor, que tem que ser levada a um curandeiro para ser liberta do encanto.

Nas localidades interioranas, é comum a recomendação de que as mulheres não andem de canoa, não transitem pelos beiradões quando estiverem menstruadas, e evitem o uso de vestidos vermelhos, pois esta cor agrada ao boto e pode atraí-lo.

No caráter erótico e afetivo do mito do boto guarda estreita relação com temperamento sensual do habitante nativo da região que, inclusive, utiliza as partes do animal para fazer amuletos.

No olho de boto, assim como o órgão sexual do boto fêmea, são muito requisitados por curandeiros e feiticeiros, e tidos como matéria-prima de amuletos de incrível eficácia em casos amorosos.

Enfim, este ente saído do mundo interior, o mundo que no mito está simbolizando pelas águas dos rios e mares, tem o poder de suplantar a realidade consciente porque faz parte de um mundo mágico e telúrico, que foge à dimensão acanhada do mundo real e no qual ainda é possível viver o sonho e ser feliz.

Comentários